Vistas do Vidigal

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O projeto

'Vistas do Vidigal' é um projeto de filme etnográfico que explora a ideia da “vista” como uma metáfora que se refere ao processo sem precedentes de gentrificação das favelas no Rio de Janeiro, processo que como veremos, foi interrompido. O lugar, Vidigal, é uma pequena favela situada nos morros que separam dois dos bairros mais privilegiados da Zona Sul do Rio. As vistas do Oceano Atlântico e da praia do Leblon e de Ipanema são impressionantes. No auge da implementação da política de pacificação nas favelas do Rio, o Vidigal atraiu considerável número de visitantes e investimento estrangeiros.

 Vista do Vidigal da Avenida Niemeyer. A entrada principal fica à direita dos semáforos

Vista do Vidigal da Avenida Niemeyer. A entrada principal fica à direita dos semáforos

O título

‘Vistas do Vidigal’ mostra a diversidade de opiniões sobre a comodificação da paisagem do Vidigal, algo que observei quando lá residi em 2014. A gentrificação fazia parte de um processo mais amplo de revitalização da cidade que adentrou os mercados imobiliários de favelas da Zona Sul carioca no período anterior a dois megaeventos, a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016. Porém, tanto pessoas de fora da comunidade quanto residentes do Vidigal reapropriaram o termo gentrificação para negociar seu direito de estar e se manter na favela. O aquecimento do mercado imobiliário no Vidigal produziu novos desafios e oportunidades, ampliando o leque de possibilidades para os moradores e descortinando outros possíveis futuros. ‘Vistas do Vidigal’ também se refere ao uso do vídeo no processo de colaboração com residentes da favela que resultou nos seis curtas apresentados aqui.

Vista do alto do Vidigal

Vista do alto do Vidigal

O círculo

Os filmes mostram a pluralidade de visões sobre a vida no Vidigal em 2014. Eles são apresentados aqui em forma de uma roda giratória; não há um ponto inicial fixo, nem tampouco uma sequência determinada. A proposta é de que os círculos sejam escolhidos aleatoriamente, ecoando a fluidez das relações sociais e as vivências que caracterizam esta comunidade urbana. Embora as histórias em cada filme sejam lineares, suas conexões são transitórias e ao acaso. As histórias lidam com os dilemas, desejos, incertezas e esperanças de quem vive em uma área urbana desfavorecida que se tornou um foco de expansão do capital imobiliário antes da crise econômica de 2017. As histórias mostram também as estratégias, através do capital imobiliário, que as pessoas no Vidigal utilizavam para lidar uma ideologia racista, enraizada na geografia segregada do Rio.

O contexto

Os sinais de gentrificação da favela aparecem no período de oito anos de instalação das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora). A política polêmica de estabelecer uma polícia comunitária nas favelas teve início em 2008, quando a cidade do Rio de Janeiro passa a promover a segurança urbana em antecipação aos dois megaeventos. O objetivo oficial da UPP, também chamada de pacificação, era acabar com a influência armada e violenta do tráfico de drogas em determinadas favelas e recuperar o controle dos territórios para em seguida 'reintegrá-los' na cidade. O Vidigal recebeu sua Unidade de Polícia Pacificadora seis meses antes da minha primeira visita à favela, em julho de 2012. Foi a décima-nona UPP a ser instalada no Rio de Janeiro. Quando em 2014 cheguei para meu trabalho de campo no Vidigal, 38 UPPs haviam sido instaladas em diferentes regiões do Rio, abrangendo mais de 100 favelas.

Rua Dom Eugênio Sales no 314

Rua Dom Eugênio Sales no 314

Pacificação e gentrificação

Quando visitei o Vidigal pela primeira vez em 2012, os moradores, em geral, viam a pacificação como uma tática dúbia que projetava uma imagem de segurança para a mídia internacional e potenciais turistas que planejavam vir ao Rio curtir os megaeventos, tática esta que seria desmantelada com o fim das Olimpíadas de 2016. Em 2014, essa percepção havia mudado e os moradores do Vidigal acreditavam que a política da UPP iria durar mesmo após o término dos megaeventos justamente por causa da gentrificação das favelas. O investimento feitos por pessoas de classe média estrangeira e brasileira, assim como sua presença conspícua na favela, representava uma espécie de garantia. Ou seja, a manutenção de um estado de segurança relativo nas favelas seria priorizada não para beneficiar a população pobre, mas sim para permitir a extração de capital de territórios urbanos que antes estavam fechados para investimento. Os favelados não se iludiam. Independentemente de serem a favor ou contra a pacificação e a gentrificação, os moradores do Vidigal se encontravam entre a cruz e a caldeirinha.

Por um lado, a gentrificação bem sucedida destruiria as favelas, expulsando seus moradores, negros, migrantes, pobres e trabalhadores, dos bairros nobres no coração da cidade. Por outro lado, se a UPP fracassasse, os líderes do tráfico iriam recuperar seu território e retaliar contra os moradores que aprovaram ou se beneficiaram da pacificação. Ou pior ainda, havia o risco de restauração de uma política de segurança extremamente violenta, racista e discriminatória que disputaria o controle sobre as favelas. Segundo um morador, "o Vidigal só vai continuar sendo uma favela de protagonismo negro pobre se vivermos sem segurança". Essa compreensão de que a segurança promovida pelo governo não traria benefícios para a comunidade é um dos efeitos perversos das políticas voltadas às favelas para aqueles que vivem em um constante estado de injustiça.

Viela na area 314

Viela na area 314

Desdobramentos atuais

Na época em que escrevia este texto, em dezembro de 2019, a situação dos moradores do Vidigal já havia mudado novamente de maneira drástica. O modelo de segurança da UPP apresentou falhas pela primeira vez em 2013, com o desaparecimento de um pedreiro que policiais da UPP haviam levado para ser interrogado na Rocinha, uma grande favela vizinha ao Vidigal. As tentativas de pacificar os complexos das favelas do Alemão e da Maré, para onde muitos traficantes de comunidades da Zona Sul haviam ido após a ocupação da UPP, acabaram em confrontos violentos entre a polícia e as facções ligadas ao tráfico de drogas. Diante de uma economia enfraquecida, os recursos que sustentavam o modelo de policiamento comunitário foram diminuindo, e uma crise política nacional tomou conta do país seguida do questionável impeachment de uma presidenta democraticamente eleita em 2016. Um governo interino impopular e corrupto e uma grande mídia alinhada com a elite política abriram caminho para a formação de um movimento contra a esquerda do país. Foi neste cenário que os brasileiros elegeram o presidente populista de extrema-direita Bolsonaro. Essa reviravolta foi protagonizada por políticos brasileiros que se diziam fartos da corrupção política, e fundada em uma narrativa moralista que colocava trabalhadores pobres, negros, sem-terra e precários na categoria de dependentes do estado.

Polícia militar vigiando a entrada do Vidigal durante uma maratona na cidade que incluiu um circuito pela favela

Polícia militar vigiando a entrada do Vidigal durante uma maratona na cidade que incluiu um circuito pela favela

No Rio de Janeiro, um desconhecido ex-fuzileiro e juiz federal aproveitou a mesma retórica racista, misógina, homofóbica e conservadora para emergir da completa obscuridade e assumir o principal cargo no governo estadual do Rio de Janeiro. Após instalar um aparato policial que desrespeitava os direitos civis e humanos dos pobres, o mantra da política de segurança do governador Witzel era ‘bandido bom é bandido morto’. Moradores de favelas eram vistos como criminosos, potenciais criminosos ou cúmplices de criminosos, pelo simples fato de morarem em uma favela. O modelo de policiamento comunitário da pacificação, com todos os seus problemas, virou coisa do passado.

Futuros imprevisíveis

As alianças políticas federais, estaduais e municipais são voláteis e imprevisíveis. Os arranjos mudam com tal velocidade que este texto certamente estará desatualizado assim que for publicado. No entanto, para os moradores de favelas atualmente sob essa política de segurança truculenta estilo Witzel, a vivência anterior de pacificação e gentrificação pode parecer agora como uma experiencia de outro mundo. Embora conscientes dos problemas de ambos os fenômenos, moradores do Vidigal haviam imaginado uma outra vida – uma vida sem o perigo constante de incursões rotineiras da polícia militar e fogo cruzado, e medo de retaliação do tráfico de drogas. Mais um efeito perverso, mas potente, da política de pacificação foi criar a sensação, embora superficial e temporária, de segurança no Vidigal; o vislumbrar de uma outra vida possível. No entanto, sem uma mudança radical dos mecanismos ideológicos e discriminatórios contra a população negra e pobre, nenhuma política pública de segurança ou integração de favelas que beneficie os favelados pode funcionar a longo prazo. Dito isto, a gentrificação do Vidigal mostrou aos moradores o que pode acontecer quando alguns ganham acesso ao tipo de capital que lhes permite participar do jogo capitalista: a possibilidade não só de sonhar, mas de planejar um futuro melhor.

Vista do Morro Dois Irmãos

Vista do Morro Dois Irmãos

Esperança

Embora a gentrificação possa ter beneficiado algumas famílias no Vidigal, o processo não provocou uma mudança efetiva na vida dos moradores. Se o processo tivesse continuado, a gentrificação provavelmente teria transformado o Vidigal em um bairro de classe média. O subsequente aumento do custo de vida seria incompatível com as possibilidades daqueles moradores que construíram com suas próprias mãos as primeiras casas na comunidade. Políticas públicas que tinham o objetivo de fomentar uma nova sociedade e ordem social, e oferecer acesso ao ensino superior e saúde pública de qualidade, estão sendo desmanteladas pelo novo regime conservador. Se para a população pobre saúde e educação são meios de atingir bem-estar social e capital cultural, para os investidores esses serviços representam lucro ao invés de inclusão. No entanto, uma nova geração de pessoas dinâmicas, bem informadas, e com pensamento crítico, que nasceram e cresceram em favelas teve acesso, sem precedentes, ao ensino superior gratuito durante os treze anos do governo anterior. Esta é a geração que hoje lidera os novos movimentos de resistência, constituindo uma sólida oposição política ao status quo atual.

Banner Parem de Nos Matar, movimento de resistência que começou no Vidigal contra o aumento da violência policial após o fim das Olimpíadas de 2016

Banner Parem de Nos Matar, movimento de resistência que começou no Vidigal contra o aumento da violência policial após o fim das Olimpíadas de 2016